Quando um paciente recebe o diagnóstico de câncer, raramente sabe que a sentença escrita no laudo passou pelas mãos de um médico que nunca o viu pessoalmente. Esse profissional é o patologista — o especialista que analisa tecidos e células ao microscópio e determina, com precisão, se uma lesão é benigna ou maligna, qual o seu subtipo e qual o tratamento mais adequado.
Sem esse diagnóstico, não há oncologia.
E no Brasil, esses profissionais estão em falta crítica.
Segundo a demografia médica no Brasil 2025, pesquisa realizada pelo Ministério da Saúde, pela Faculdade de Medicina da USP e pela Associação Médica Brasileira, o país conta hoje com apenas 4.424 médicos patologistas, o que representa uma densidade de 2,08 patologistas por 100 mil habitantes.
A Organização Mundial da Saúde recomenda entre 5 e 6 patologistas por 100 mil habitantes. Estamos, portanto, com menos da metade do mínimo recomendado.
A distribuição geográfica agrava ainda mais esse quadro. No Acre, há apenas 10 patologistas para toda a população do estado. No Amapá, 9. Em Roraima, 11. Enquanto isso, São Paulo concentra a maior parte dos especialistas, criando um mapa de acesso ao diagnóstico que replica, com fidelidade perturbadora, o mapa das desigualdades sociais do país.
A consequência mais visível desse déficit está nos dados oncológicos. Segundo o Instituto Oncoguia, 58% dos pacientes diagnosticados com câncer no SUS iniciam o tratamento já em estágios avançados ou metastáticos, fases em que as chances de cura são significativamente menores e os custos do tratamento são muito maiores.
O diagnóstico tardio tem múltiplas causas, mas a escassez de patologistas é um gargalo central que frequentemente passa despercebido no debate público. Uma auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU), realizada ainda em 2019, já havia identificado o diagnóstico histopatológico como um dos principais gargalos na linha de cuidado oncológico no Brasil.
Sem patologista, não há biópsia interpretada. Sem biópsia interpretada, não há diagnóstico. Sem diagnóstico, o tratamento não começa, ou começa errado.
O número de patologistas cresceu 185% desde 2011 — de 1.550 para os atuais 4.424. À primeira vista, parece progresso expressivo. Mas é preciso contextualizá-lo.
Partimos de uma base crítica e o ritmo de formação ainda é insuficiente. Cerca de um terço dos patologistas brasileiros ativos tem 60 anos ou mais, o que significa que, nos próximos cinco a dez anos, uma parcela significativa da força de trabalho se aposentará e o sistema precisará repor esses profissionais em um mercado que já opera no limite.
Agravando esse quadro, vagas de residência médica em patologia seguem ociosas em muitos programas credenciados pelo Ministério da Educação.
Por que os médicos não escolhem patologia?
Pesquisas realizadas com estudantes de medicina em múltiplos países, incluindo uma revisão de escopo publicada recentemente, identificaram as principais barreiras à escolha da especialidade:
Falta de exposição durante a graduação e a maioria dos estudantes termina o curso sem jamais ter feito uma rotação em patologia ou acompanhado o trabalho de um patologista durante o período de internato.
Por anos, circulou entre estudantes a ideia de que “não havia emprego” na área, o que os dados mostram ser falsos, especialmente nos últimos anos. Essa percepção distorcida do mercado de trabalho agrava a situação.
A tabela SUS para exames de patologia está, segundo a própria Sociedade Brasileira de Patologia, “severamente defasada”, o que reduz a atratividade financeira da especialidade no setor público
Ao contrário de cirurgiões ou cardiologistas, o patologista é pouco conhecido pelo público e subestimado até dentro da própria medicina.
Cenário internacional
Nos Estados Unidos, onde os dados de candidatura a residências médicas são os mais bem documentados do mundo, a proporção de formandos que optou por patologia caiu de 1,4% em 2010 para 0,7% em 2021, uma redução de 50% em onze anos. Em 2022, houve uma leve recuperação, mas os dados mais recentes de 2025 mostram estagnação, não reversão sustentada.
No Reino Unido, o Royal College of Pathologists documentou que apenas 3% dos departamentos de histopatologia do NHS declararam ter pessoal suficiente para atender à demanda. O custo anual estimado com contratações emergenciais e terceirização de serviços chega a £27 milhões por ano.
A escassez de patologistas não é um problema brasileiro isolado, é uma crise global. Mas o Brasil, dado seu ponto de partida historicamente baixo, encontra-se entre os países mais vulneráveis.
O que precisa mudar
A solução não é simples nem rápida, mas é conhecida. Especialistas e entidades como a Sociedade Brasileira de Patologia e o próprio Ministério da Saúde têm advogado por um conjunto de medidas estruturais:
1. Revisão da tabela SUS para exames de patologia, tornando a remuneração compatível com a complexidade e a importância diagnóstica dos procedimentos.
2. Expansão de vagas de residência médica em patologia, especialmente em regiões com maior déficit de especialistas, acompanhada de incentivos para fixação nessas localidades.
3. Inserção obrigatória da patologia nos currículos de graduação médica, garantindo que todos os futuros médicos entendam o papel do patologista no cuidado ao paciente.
4. Investimento em patologia digital e telemedicina diagnóstica, que permitem que um patologista localizado em um grande centro análise casos de regiões remotas, ampliando o alcance sem exigir deslocamento físico.
5. Programas de mentoria e estágios precoces que aproximem estudantes de medicina da especialidade antes das escolhas de carreira
Governança e controle do câncer começam no diagnóstico
Para o IGCC, cuja missão é promover políticas de governança para a melhoria do controle do câncer no Brasil, o tema da força de trabalho em patologia é central e frequentemente sub-representado nos debates sobre oncologia.
Fala-se muito sobre acesso a medicamentos, sobre protocolos de tratamento, sobre centros de referência. Fala-se pouco sobre o profissional que, ao microscópio, determina se há ou não câncer, qual é o seu tipo histológico, se as margens cirúrgicas estão livres e se o tratamento está funcionando.
Sem esse profissional, toda a cadeia do cuidado oncológico fica comprometida.
Ampliar o debate sobre a escassez de patologistas no Brasil é, portanto, um imperativo de saúde pública — e uma condição para que a governança do câncer no país seja, de fato, eficaz.
Este artigo é baseado em revisão de escopo sobre tendências de recrutamento e força de trabalho em patologia no Brasil e no mundo, elaborada com dados da Demografia Médica no Brasil 2025 (MS/FMUSP/AMB), do National Resident Matching Program (NRMP/EUA), do Canadian Resident Matching Service (CaRMS), do Royal College of Pathologists (Reino Unido) e da Sociedade Brasileira de Patologia (SBP).
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Francine Hehn de Oliveira
Conselheira do IGCC
Professora Assistente do Departamento de Patologia
Faculdade de Medicina – UFRGS
Neuropatologista – Serviço de Patologia – HCPA





