Agenda promovida pelo C/Can e pela OMS destacou o papel das cidades na construção de sistemas de saúde mais integrados, equitativos e centrados nos pacientes
A Dra. Maira Caleffi, mastologista, chefe do Núcleo Mama do Hospital Moinhos de Vento e Presidente do Conselho de Administração do Instituto de Governança e Controle do Câncer (IGCC) participou, na última segunda-feira (18), de um encontro internacional promovido pelo City Cancer Challenge (C/Can) e pela Organização Mundial da Saúde (OMS), em Genebra, durante a Assembleia Mundial da Saúde (WHA). O evento reuniu especialistas, lideranças globais e representantes de diferentes países para discutir acesso ao cuidado oncológico, integração dos sistemas de saúde e políticas públicas em câncer.
Convidada para contribuir com as discussões sobre colaboração multissetorial e cuidado oncológico nas cidades, a Dra. Maira levou ao debate internacional experiências desenvolvidas pelo IGCC e o case de Porto Alegre na articulação de iniciativas voltadas à qualificação da rede de atenção em câncer.
Durante sua participação, a Dra. Maira destacou que o câncer “não acontece nos documentos de políticas públicas, mas nas cidades”, reforçando a importância de transformar estratégias globais em ações concretas nos territórios. “Os planos nacionais de câncer nos dão direção, mas a implementação acontece localmente. E é exatamente aí que o modelo do C/Can se torna tão importante”, afirmou.
A médica ressaltou que um dos principais diferenciais da iniciativa é reunir diferentes atores em torno de um objetivo comum (governos, hospitais, sociedade civil, universidades, profissionais de saúde e representantes de pessoas em jornada oncológica) criando um cuidado mais coordenado. “Aprender a sentar na mesma mesa desde o primeiro dia de qualquer atividade colaborativa garante uma implementação mais bem-sucedida”, pontuou.
Segundo ela, a falta de integração dos sistemas de saúde impacta diretamente a experiência dos pacientes.
“Para quem está em jornada oncológica, a fragmentação não é um problema administrativo. Isso pode significar atraso no diagnóstico, atraso no tratamento e, muitas vezes, piores desfechos.”
A experiência de Porto Alegre foi apresentada como exemplo de construção colaborativa voltada à qualificação da rede oncológica local. Nesse contexto, projetos desenvolvidos pelo IGCC ajudam a traduzir em ações concretas os princípios debatidos no encontro internacional.
Entre eles, está a Coalizão Cidades no Controle do Câncer. A iniciativa consiste em um movimento nacional articulado pelo IGCC em parceria com organizações da sociedade civil, que busca fortalecer o compromisso de representantes do executivo e legislativo com políticas públicas voltadas ao controle do câncer nos municípios brasileiros. O projeto ajuda a defender a ideia de que a articulação entre diferentes setores, inclusive e especialmente do poder público, é essencial para que as cidades tenham capacidade de liderar transformações concretas no cuidado oncológico.
Outro ponto central das discussões foi o câncer de mama como modelo para outras áreas da oncologia. Para a Dra. Maira, uma das maiores lições aprendidas é que o cuidado não pode funcionar em etapas isoladas, mas como uma jornada integrada e contínua para a paciente. “Uma mulher não vivencia o rastreamento, o diagnóstico, a cirurgia e o tratamento de forma separada. Ela vive um único percurso e, quando essa jornada falha, os resultados pioram”, defendeu.
Ela também destacou que avanços no cuidado em câncer de mama frequentemente geram impactos positivos em todo o sistema de saúde, ampliando a capacidade diagnóstica, a integração multidisciplinar, os sistemas de dados e a navegação de pacientes.
O encontro reforçou ainda a importância da mensuração de resultados e do uso de dados para orientar políticas públicas. Em sua fala final, a Dra. Maira enfatizou que estratégias globais só produzem impacto real quando acompanhadas de monitoramento e execução efetiva. Para ela, o sucesso das iniciativas internacionais de controle do câncer deve ser medido não pelo número de planos lançados, mas pela capacidade de garantir diagnósticos mais precoces, tratamentos mais rápidos e aumento da sobrevida dos pacientes.





