Cúpula Multilateral reúne cidades da América Latina e transforma experiências locais em compromissos para o controle do câncer

Encontro realizado pelo IGCC, em Porto Alegre, reuniu representantes de sete cidades do City Cancer Challenge, gestores públicos, especialistas, instituições de saúde e organizações da sociedade civil para compartilhar experiências e construir uma agenda comum para o controle do câncer na região

“O câncer é tão complexo e quem está na linha de frente vê isso todos os dias. Mas, se tem uma coisa que eu vou deixar de legado na minha vida, eu vou dizer: essa questão do tempo. A gente vem falando sobre o tempo há quase 20 anos. O tempo corre contra o paciente de câncer”, afirmou a Dra. Maira Caleffi, presidente do Conselho de Administração do Instituto de Governança e Controle do Câncer (IGCC).

A reflexão trazida pela mastologista sintetiza uma das questões que atravessaram os debates da I Cúpula Multilateral de Cidades da América Latina no Controle do Câncer: a necessidade de aproximar os desafios vivenciados na jornada do paciente dos espaços em que são definidas políticas, estratégias e prioridades para o controle do câncer. “A angústia que nós, que trabalhamos com o paciente, temos de não conseguir superar burocracia, problemas de deslocamento, enfim, todos esses problemas que a gente tem, nos traz uma inquietude diária”, acrescentou.

Realizada nos dias 9 e 10 de setembro, em Porto Alegre, a Cúpula reuniu representantes de Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, México, Paraguai e Peru, além de gestores públicos, profissionais de saúde, pesquisadores, instituições de saúde, organizações da sociedade civil e parceiros. O encontro foi realizado pelo IGCC, em parceria com o City Cancer Challenge (C/Can) e o Hospital Moinhos de Vento.

A programação foi estruturada em dois movimentos complementares. No primeiro dia, as sete cidades latino-americanas que integram a rede do C/Can apresentaram suas experiências, mostrando como diferentes territórios vêm construindo respostas locais para desafios relacionados ao controle do câncer. No segundo, o foco passou das experiências para a construção coletiva: mesas-redondas discutiram políticas públicas, financiamento, governança, inovação e articulação entre diferentes setores.

O resultado desse percurso foi a formalização de dois compromissos: a Repactuação do Compromisso com a Qualidade do Cuidado no Controle do Câncer, assinada por IGCC, Hospital Moinhos de Vento, C/Can e Prefeitura de Porto Alegre, e o Manifesto IGCC 2030, construído coletivamente ao longo da Cúpula.

Sete cidades, diferentes caminhos para desafios compartilhados

O primeiro dia da Cúpula foi dedicado à apresentação das experiências de Concepción, Rosário, Arequipa, León, Asunción, Cali e Porto Alegre, que compartilharam iniciativas desenvolvidas no âmbito do C/Can. A proposta foi colocar em perspectiva diferentes formas de organizar respostas locais para desafios que atravessam os sistemas de saúde da América Latina.

Foram apresentadas experiências relacionadas à governança, qualidade e segurança do cuidado, navegação de pacientes, organização de equipes multidisciplinares, planejamento e articulação entre diferentes atores dos sistemas de saúde. A programação também contou com um panorama regional sobre o câncer e suas desigualdades.

“A América Latina é um continente jovem, e isso também se reflete no perfil dos pacientes com câncer. No Brasil, em torno de 37% das pacientes diagnosticadas com câncer de mama têm menos de 50 anos, uma proporção maior do que a observada em países da Europa e nos Estados Unidos. Isso representa um desafio importante, inclusive para as estratégias de rastreamento. Em uma população como a nossa, discutir a idade de início do rastreamento é fundamental”, destacou o Dr. Gustavo Werutsky. 

Ao apresentar a experiência de Porto Alegre, a Dra. Fernanda Casarotto destacou a capacidade de articulação entre diferentes atores como um dos elementos necessários para aproximar as decisões das necessidades observadas na assistência.

“Acho que essa é a vocação do IGCC: fazer a aliança entre o público e o privado, conversar com os múltiplos tomadores de decisão, com stakeholders importantes e com as pessoas que participam dessas ações, mas que muitas vezes estão distantes de quem está na ponta, de quem está de fato provendo o cuidado. É tentar juntar essas duas pontas. Muitas vezes pode parecer uma coisa óbvia, uma coisa fácil, mas não é”, afirmou.

A apresentação de Porto Alegre também mostrou como o uso de dados pode apoiar a gestão e a identificação de gargalos ao longo da jornada do paciente. Alexia Nedel Sant’Ana, da Secretaria Municipal de Saúde de Porto Alegre, apresentou o projeto Prisma, uma plataforma de monitoramento que integra diferentes bases de dados para qualificar as informações disponíveis aos profissionais e gestores.

“Para que a gente consiga, de fato, atuar sobre o problema, precisamos conhecer exatamente onde estão os gargalos do processo. A plataforma monitora toda a jornada da paciente, desde o diagnóstico até o tratamento e o desfecho, integrando as bases de dados para transformar dados puramente administrativos em informação clínica e epidemiológica qualificada para gestores públicos, pesquisadores, médicos e oncologistas”, explicou Alexia.

Ao final do primeiro dia, o Network Meeting levou os participantes a identificar pontos de convergência entre as experiências apresentadas. A dinâmica, realizada a partir de perguntas e contribuições coletivas, começou a dar forma ao que seria consolidado no dia seguinte como o Manifesto IGCC 2030.

Da experiência à construção de compromissos

Se o primeiro dia teve como ponto de partida aquilo que as cidades já estavam fazendo, o segundo dia deslocou a discussão para uma questão central: como transformar conhecimento, políticas e parcerias em implementação sustentável?

A programação reuniu representantes do Ministério da Saúde, Governo do Estado, Prefeitura de Porto Alegre, OPAS/OMS, CONASEMS, instituições de saúde, academia, setor privado e sociedade civil.

Na abertura, a presidente do Conselho de Administração do IGCC, Dra. Maira Caleffi conduziu a reflexão sobre a passagem das políticas e parcerias colaborativas para a implementação. “A América Latina compartilha desafios importantes no controle do câncer, mas cada cidade também tem experiências e soluções que podem contribuir para outras realidades. Colocar essas diferentes perspectivas em diálogo é o que permite avançar na construção de compromissos capazes de fortalecer as políticas públicas e reduzir desigualdades no acesso ao cuidado em toda a região”, afirmou Maira Caleffi durante a Cúpula. 

Na sequência, a Dra. Maria Fernanda Navarro, diretora regional para a América Latina do C/Can, abordou a relação entre um problema global e as soluções construídas nos territórios.

A programação seguiu com mesas-redondas dedicadas a políticas públicas, financiamento sustentável, pactuações municipais e regionais, governança local, articulação multissetorial e soluções sistêmicas. Ao mediar o Painel 3, Mely Paredes, Gestora Institucional, de Policy e Projetos do IGCC, destacou que os desafios relacionados ao câncer ultrapassam o setor da saúde e exigem respostas articuladas às diferentes realidades da população e dos territórios.

“O câncer não é um problema só da saúde, é um problema da sociedade, de todos nós. Quando a gente pensa em rede, esse é um grande desafio. A rede precisa ser responsiva às necessidades da sociedade e dos territórios. Precisamos pensar em mecanismos que aproximem o financiamento do planejamento e em como usar indicadores e resultados em saúde para tornar essa resposta mais efetiva”, afirmou Mely.

No Painel 5, diferentes perspectivas se encontraram para discutir como governos, instituições de saúde, organizações da sociedade civil e setor privado podem atuar de forma coordenada diante de desafios que não podem ser solucionados por um único setor. Fernando Ritter, secretário municipal de Saúde de Porto Alegre, participou da discussão sobre alianças e soluções sistêmicas. Durante sua fala, Ritter destacou a importância de avançar na integração dos serviços e das informações para qualificar a jornada das pessoas no sistema de saúde. “Tenho certeza de que até 2030 estaremos em outro patamar”, afirmou o secretário. 

Porto Alegre renova compromisso com a qualidade do cuidado

Um dos momentos centrais da Cúpula foi a assinatura da Repactuação do Compromisso com a Qualidade do Cuidado no Controle do Câncer, firmada pelo IGCC, Hospital Moinhos de Vento, City Cancer Challenge e Prefeitura de Porto Alegre, por meio da Secretaria Municipal de Saúde.

O documento renova a aliança construída na capital a partir da experiência do C/Can e reafirma a disposição das quatro instituições de atuar conjuntamente pela qualificação das políticas públicas e pela melhoria contínua da qualidade do cuidado.

A repactuação parte do reconhecimento de que os avanços científicos e tecnológicos ampliaram as possibilidades de prevenção, detecção precoce, diagnóstico e tratamento, mas que ainda persistem desafios relacionados às desigualdades de acesso, à fragmentação das jornadas de cuidado, à capacidade dos serviços, à informação, ao financiamento e à implementação efetiva das políticas públicas.

Entre os compromissos assumidos estão o fortalecimento da promoção da saúde, prevenção, rastreamento e detecção precoce; a construção de jornadas de cuidado mais coordenadas e resolutivas; a redução das desigualdades; e a manutenção de espaços permanentes de diálogo para acompanhamento de prioridades, avanços e obstáculos.

O documento também reconhece pacientes, organizações da sociedade civil e comunidades como parceiros estratégicos para a definição de prioridades.

Na cerimônia de assinatura, a Dra. Maira Caleffi reforçou o caráter coletivo da repactuação:

“Estamos afirmando que são as cidades que enfrentam o câncer. O IGCC não é de Porto Alegre: tem abrangência nacional, e vamos levar essa experiência para outras cidades. Assinamos esta repactuação para garantir colaboração e sustentabilidade na nossa cidade, para que possamos seguir juntos.” 

Para o IGCC, a renovação do compromisso representa também a continuidade de uma trajetória iniciada em Porto Alegre e a consolidação de uma forma de atuação baseada em articulação, governança e cooperação.

Manifesto IGCC 2030 transforma diálogo em agenda regional

As discussões realizadas ao longo dos dois dias também deram origem ao Manifesto IGCC 2030, construído a partir dos desafios e aprendizados compartilhados durante a Cúpula. O documento consolida questões comuns às cidades latino-americanas em uma agenda de incidência voltada à ampliação do acesso ao diagnóstico e ao tratamento e à redução de mortes evitáveis por câncer, permanecendo aberto à adesão de outras cidades e parceiros.

Dra. Maria Fernanda Navarro, diretora regional para a América Latina do City Cancer Challenge (C/Can), destacou que um dos desafios para o controle do câncer está justamente na distância entre as recomendações formuladas em âmbito global e sua implementação nos territórios.

“Existe uma diferença entre as recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS) e dos governos, e a implementação. É essa lacuna que precisamos superar para que as soluções realmente cheguem aos pacientes. Quando começamos a trabalhar com cidades, em 2017, essa abordagem ainda não era muito comum, porque o câncer era visto principalmente como uma questão a ser tratada em nível nacional. Nós acreditávamos que, trabalhando nesse ecossistema local, seria possível fazer com que essas recomendações fossem efetivamente implementadas”, explicou Navarro.

A perspectiva dialoga com a proposta do Manifesto de partir das experiências e necessidades identificadas nos territórios para fortalecer uma agenda compartilhada para o controle do câncer na América Latina. Além de reunir desafios comuns, o documento também busca aproximar compromissos regionais das possibilidades concretas de implementação nas cidades.

Um compromisso que continua depois da Cúpula

Ao reunir cidades com diferentes contextos, mas desafios comuns, a I Cúpula Multilateral mostrou que a construção de respostas para o controle do câncer depende da capacidade de conectar conhecimento, políticas públicas, serviços de saúde, inovação e participação social.

O percurso dos dois dias, da apresentação das experiências locais às mesas de diálogo e, finalmente, à assinatura dos compromissos,  reforçou uma mensagem central: as transformações precisam acontecer nos territórios, mas podem ser aceleradas quando as cidades compartilham experiências e constroem soluções conjuntamente.

A Repactuação do Compromisso com a Qualidade do Cuidado e o Manifesto IGCC 2030 passam agora a representar novos pontos de partida para essa agenda.