Artigo | Teste genético no SUS: um avanço no cuidado ao câncer de mama

Uma informação genética pode orientar o tratamento do câncer de mama e o acompanhamento de pacientes e familiares. Para virar benefício, porém, o sistema precisa conectar indicação, exame, interpretação e continuidade do cuidado.

Nesse contexto, em maio de 2026, a Portaria SCTIE/MS nº 25 incorporou ao SUS o sequenciamento de nova geração (NGS) para identificar mutações em BRCA1 e BRCA2 em mulheres com câncer de mama. O prazo máximo para efetivar a oferta é de 180 dias, que se encerra em novembro. Por isso, neste Outubro Rosa, é preciso discutir como transformar essa decisão em acesso.

Do ponto de vista clínico, BRCA1 e BRCA2 participam do reparo do DNA, e algumas alterações nesses genes aumentam a predisposição a certos cânceres. Quando a alteração é hereditária, sua identificação também pode orientar a avaliação de familiares. Isso não significa, contudo, que o câncer seja inevitável. Resultados negativos ou de significado incerto exigem interpretação cuidadosa; daí o aconselhamento genético integrar essa jornada. Os critérios de indicação, por sua vez, dependem dos protocolos clínicos.

Para que isso ocorra na prática, a implementação exige fluxos de encaminhamento, capacidade laboratorial, profissionais capacitados, resultados em tempo útil e acompanhamento após o exame, com atenção às desigualdades entre territórios.

Em última análise, transformar a incorporação em acesso efetivo depende de decisões de gestão. A pauta deve, portanto, integrar o debate eleitoral deste ano e os planos de governo das futuras gestões, com financiamento sustentável, organização da rede e monitoramento contínuo. Trata-se também de uma agenda de governança, pois envolve pactuar responsabilidades, prever recursos e acompanhar a assistência. Nesse sentido, a sociedade civil pode contribuir apresentando demandas e acompanhando os compromissos públicos. 

Por Dra. Maira Caleffi

Mastologista e Presidente do Conselho de Administração do Instituto de Governança e Controle do Câncer (IGCC)