Artigo | O papel do médico patologista no protagonismo do diagnóstico do câncer

O complexo ecossistema da atenção ao paciente oncológico exige integração, precisão e decisões baseadas em evidências. Nesse contexto, o médico patologista se consolida como um integrante estratégico da equipe multidisciplinar no cuidado centrado no paciente oncológico. Este especialista é o eixo entre a suspeita clínica e a certeza diagnóstica e, por extensão, entre a decisão terapêutica e o desfecho do paciente.

A Patologia é, de fato, a especialidade responsável por realizar o diagnóstico de câncer, determinar a natureza das células neoplásicas, classificar subtipos tumorais e, cada vez mais, identificar biomarcadores que orientam terapias-alvo e decisões terapêuticas personalizadas. Em um cenário de medicina de precisão, o patologista é um agente ativo na articulação multidisciplinar, atuando em conjunto com oncologistas, cirurgiões, radiologistas e equipes terapêuticas para construir planos de tratamento mais eficazes e adequados.

No entanto, apesar da sua relevância técnica e específica, o Brasil enfrenta um déficit significativo de médicos patologistas, um desafio que impacta diretamente a qualidade e a celeridade do diagnóstico oncológico. Segundo dados da Pesquisa Demografia Médica no Brasil 2025, atualmente existem cerca de 4.424 patologistas no País, o que corresponde a 2,08 especialistas por 100 mil habitantes. Menos da metade do recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que aponta para cinco a seis patologistas por 100 mil habitantes

Essa lacuna não é apenas numérica: ela está ligada a desigualdades regionais na distribuição desses profissionais, com a maior parte concentrada em grandes centros urbanos e no Sudeste, e poucas unidades no Norte ou em municípios interioranos. Essa assimetria compromete o acesso equitativo ao diagnóstico oncológico, especialmente nos estágios mais precoces, em que o prognóstico pode ser mais favorável.

A escassez de patologistas também tem reflexos diretos nos indicadores de saúde: dados analisados pelo Instituto Oncoguia mostram que 58% dos pacientes diagnosticados pelo SUS iniciam o tratamento em estágios avançados ou metastáticos. Situação que pode ser agravada por atrasos no diagnóstico anatomopatológico.

Além disso, fatores como a defasagem na remuneração de procedimentos essenciais (por exemplo, biópsias fundamentais para confirmar ou descartar câncer) e a limitada procura pela especialidade entre médicos recém-formados agravam o cenário.

 Então, qual é o papel e a responsabilidade de gestores e profissionais de saúde?

  •  Valorizar e integrar o patologista nas equipes de cuidado oncológico, reconhecendo relevância da especialidade na cadeia diagnóstica, prognóstica e de tomada de decisão.
  • Investir em infraestrutura laboratorial e tecnológica, incluindo metodologia moderna como imunohistoquímica e, progressivamente, ferramentas de biologia molecular e diagnóstico digital, que ampliam precisão e rapidez diagnósticas.
  • Estimular a formação e fixação de patologistas, por meio de políticas públicas de saúde, políticas educacionais e incentivos profissionais que despertem interesse pela especialidade e garantam distribuição mais equitativa desses especialistas.
  • Promover a governança em patologia diagnóstica como parte de estratégias de câncer em saúde pública, desde a vigilância epidemiológica até a linha de cuidado oncológico integrada.

Em um país com carga crescente de câncer e desafios no acesso à saúde, o protagonismo dos patologistas é estratégico. Eles definem diagnósticos; norteiam os caminhos terapêuticos e influenciam diretamente os desfechos clínicos dos pacientes. Reconhecer, fortalecer e integrar essa especialidade deve prioridade em qualquer agenda de qualidade, equidade e eficiência na saúde.

Simone MS Machado

Conselheira do IGCC

Patologista do Hospital de Clínicas de Porto Alegre 

Membro da Comissão de Acreditação do PACQ – Programa de Acreditação e Controle de Qualidade da Sociedade Brasileira de Patologia