IGCC completa quatro anos fortalecendo a governança do câncer no Brasil

O câncer é um dos maiores desafios da saúde pública contemporânea. No Brasil, ele segue entre as principais causas de morte, não por falta de conhecimento científico ou de tecnologias disponíveis, mas por falhas estruturais na forma como os sistemas de saúde organizam o cuidado, integram dados, garantem equidade e transformam evidências em políticas públicas.

Foi para enfrentar esse desafio — menos visível, porém decisivo — que nasceu o Instituto de Governança e Controle do Câncer (IGCC). Ao completar quatro anos de existência, o Instituto consolida uma trajetória marcada por método, articulação e impacto concreto, atuando onde o sistema historicamente falha: na governança do cuidado oncológico.

Uma origem conectada ao mundo

A história do IGCC começa antes mesmo de sua fundação formal. Em 2017, durante o Fórum Econômico Mundial em Davos, a União Internacional para o Controle do Câncer (UICC) lançou o City Cancer Challenge Foundation (C/Can), uma iniciativa global voltada a apoiar cidades de países de baixa e média renda para fortalecer seus sistemas de atenção oncológica.

No ano seguinte, Porto Alegre foi escolhida como a cidade brasileira a integrar essa rede global. A decisão deu início a um processo inédito de cooperação entre governo municipal, governo estadual, hospitais, sociedade civil e organismos internacionais. Em 2018, foi assinado o Memorando de Entendimento entre o C/Can, a Prefeitura de Porto Alegre, o Governo do Estado do Rio Grande do Sul, o Hospital Moinhos de Vento e instituições da sociedade civil, formalizando o compromisso com uma nova forma de enfrentar o câncer no território.

A partir daí, a cidade passou a adotar a metodologia do C/Can, baseada no engajamento de múltiplos atores, no diagnóstico rigoroso das lacunas do sistema e no desenho de soluções sustentáveis. Em 2019, a Avaliação de Necessidades identificou 33 desafios prioritários no cuidado oncológico em Porto Alegre. Esses desafios deram origem a um Plano de Ação estruturado, que começou a ser implementado entre 2019 e 2021.

Do projeto à instituição: nasce o IGCC

A consolidação dessas iniciativas evidenciou a necessidade de uma estrutura permanente, capaz de dar continuidade aos projetos, sustentar parcerias e ampliar o impacto para além de uma única cidade. Em setembro de 2021, foi realizada a Assembleia de Fundação do Instituto de Governança e Controle do Câncer.

Criado como uma associação sem fins lucrativos, o IGCC nasceu com uma missão clara: fortalecer a governança do controle do câncer, transformar dados em decisões, articular políticas públicas e promover equidade no cuidado oncológico.

O lançamento oficial ocorreu em fevereiro de 2022, em cerimônia na Prefeitura de Porto Alegre, com a assinatura de um novo Memorando de Entendimento entre o IGCC, o C/Can, o Governo do Estado do Rio Grande do Sul e o município. A partir desse momento, o Instituto passou a atuar como parceiro estratégico de sustentabilidade do City Cancer Challenge em Porto Alegre e como plataforma para expansão das iniciativas para outras cidades brasileiras.

Método, evidência e impacto no território

Desde então, o IGCC construiu uma atuação baseada em três pilares centrais: evidência técnica, colaboração interinstitucional e foco em resultados mensuráveis.

Entre os marcos iniciais estão a publicação do Manual da Qualidade: Patologia em Foco, que padronizou práticas laboratoriais conforme padrões internacionais, e o fortalecimento do Registro de Câncer de Base Populacional, com capacitação da equipe municipal responsável pela coleta e divulgação dos dados, em parceria com o INCA.

Na sequência, o Instituto liderou e apoiou projetos voltados à melhoria do diagnóstico precoce, à reorganização de fluxos assistenciais e à análise da jornada dos pacientes, como o projeto de ampliação do acesso à radioterapia para câncer de próstata e o estudo de microcusteio em hospital público para câncer de pulmão.

Essas iniciativas ajudaram a consolidar uma convicção que hoje orienta toda a atuação do IGCC: no câncer, tempo é vida e sistemas organizados salvam mais vidas do que ações isoladas.

Cidades como motor da transformação

A partir dessa visão, o IGCC ampliou sua atuação para outras regiões do país por meio da Coalizão Cidades no Controle do Câncer, um movimento nacional que mobiliza gestores públicos, legislativos municipais e sociedade civil em torno de prioridades concretas da agenda oncológica.

Nos últimos anos, cidades como Viamão (RS), Piumhi (MG) e Vargem Bonita (MG) se tornaram referência nacional ao alcançar 100% de adesão de seus legislativos à pauta do controle do câncer, com compromissos formais voltados à prevenção, ao rastreamento e à fiscalização de políticas públicas. Em alguns desses municípios, os resultados já são visíveis, como o alcance da meta de 90% de cobertura vacinal contra o HPV, estabelecida pela Organização Mundial da Saúde.t

Visão Zero: prevenir mortes evitáveis

Outro eixo central da atuação do IGCC é a prevenção. O projeto Visão Zero partiu de um princípio simples e poderoso: nenhuma pessoa deveria morrer de um câncer que pode ser prevenido.

Em Porto Alegre, a iniciativa ampliou a cobertura vacinal contra o HPV e fortaleceu ações de rastreamento do câncer de colo do útero, especialmente em territórios de maior vulnerabilidade social, como o bairro Restinga. Com estratégias que combinaram vacinação em escolas, rodas de conversa, capacitação de profissionais de saúde e mobilização comunitária, o projeto resultou em um aumento de 12% na cobertura vacinal na faixa etária prioritária, representando centenas de crianças e adolescentes protegidos contra um câncer evitável.

Ao longo de sua execução, o Visão Zero também investiu na formação de agentes multiplicadores em saúde, fortalecendo o vínculo entre escolas, unidades de saúde e famílias. Além de deixar um legado de conscientização, qualificação profissional e articulação comunitária, que segue influenciando as políticas locais de prevenção.

Equidade racial no centro da agenda

Em 2024, o IGCC deu um passo decisivo ao trazer para o centro do debate um tema historicamente invisibilizado: o impacto do racismo estrutural nos desfechos do câncer. Em parceria com a UFRGS e a BMS Foundation, o Instituto conduziu o estudo Invisibilidade do Câncer na População Negra, que analisou dados dos Registros Hospitalares de Câncer no Rio Grande do Sul.

Os resultados, apresentados no Congresso Todos Juntos Contra o Câncer, evidenciaram desigualdades profundas no diagnóstico, no início do tratamento e na sobrevida de pacientes negros, especialmente mulheres. A partir dessas evidências, o IGCC passou a defender recomendações concretas, como a incorporação do quesito raça/cor nos boletins epidemiológicos e a criação de instâncias de governança dedicadas à equidade racial em saúde.

Dados, tecnologia e futuro

Mais recentemente, o Instituto tem liderado a implementação do Global Breast Cancer Initiative (GBCI) em Porto Alegre, em parceria com a Organização Mundial da Saúde, o City Cancer Challenge, a Secretaria Municipal de Saúde e a Procempa. O projeto integra dados de toda a jornada da paciente com câncer de mama, utiliza inteligência artificial e fortalece a governança clínica, posicionando a capital gaúcha entre as cidades que lideram a inovação no cuidado oncológico.

Quatro anos depois e o que vem pela frente

Ao completar quatro anos, o IGCC reafirma sua vocação: não substituir o sistema de saúde, mas fortalecê-lo; não criar soluções isoladas, mas articular respostas coletivas; não produzir dados por si só, mas transformá-los em decisões, políticas e vidas salvas.

O caminho percorrido até aqui mostra que é possível enfrentar o câncer com mais coordenação, equidade e inteligência. E que cidades, quando apoiadas por boa governança e colaboração, podem ser o ponto de virada para transformar a realidade do câncer no Brasil.